Posts Tagged ‘segregação social’

previdencia-08_08_16Nos últimos dias, voltou à voga a discussão sobre a reforma na Previdência Social. Que significa diretamente a mudança no modus operandi dos benefícios de aposentadoria pagos pelo governo.

A mudança nesse ponto é constante e se deve ao fato irrefutável que o brasileiro vem aumentando sua longevidade. Isso, aliado à baixa natalidade, traz cada vez menos contribuintes [do INSS], ou simploriamente trabalhadores, para um número crescente de beneficiários, também chamados de aposentados.
Fiz uma conta “burra”, numa conversa informal: se tivermos 50% de aposentados e 50% de trabalhadores, cada trabalhador pagando 11% do seu salário ao INSS, cada beneficiário terá um salário de apenas 11% do salário dos contribuintes. Pouco, se pensarmos que a média de salários do país é de R$1987 (dado para 2014, homens – aqui). Se quiséssemos um sistema eficiente e auto-suficiente, essa seria a conta-base.

Isso posto, vamos aos pontos “piratas” que tenho a expor.

Não adianta mudar a regra, de 30-35 anos de contribuição ou de 60-65 anos de idade, aumentando ambos os números indefinidamente. A relação de quem paga versus quem usufrui está errada. E não é somente pelo número de pessoas, mas principalmente pela ausência de teto e uniformidade nos benefícios concedidos.
Enquanto o trabalhador da iniciativa privada tem teto de R$5.189, 82 (fonte aqui), funcionários do serviço público, concursados ou não, militares e ex-funcionários dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário não possuem limite.
E são exatamente essas aposentadorias de 20 ou 30 mil reais que oneram a Previdência na minha opinião.

Os políticos representam um caso a parte.
Aumentam o próprio salário, causando aumentos em cascata para cargos correlatos em outros poderes.
E possuíam uma previdência especial, chamada IPC (Instituto de Previdência dos Congressistas), hoje extinta, que previa aposentadoria a partir do segundo mandato, a partir dos 50 anos de idade.
Só as aposentadorias do IPC drenaram dos cofres públicos R$116 milhões em 2014 (fonte aqui).
Proponho não apenas o mesmo limite para cargos públicos , nos R$5.189,82, mas a adoção do salário do político baseado na média dos seus vencimentos dos últimos 24 meses. Afinal, é injusto “lucrar” com a política e com a posterior aposentadoria, se o cidadão era taxista e obtinha vencimentos médios de R$2.000,00.

Outro capítulo poderia ser erigido em relação aos militares; que passam (ou passavam sem custo extra até 2001) os seus benefícios para as viúvas ou filhas solteiras ao falecer.
O mínimo que poderia ser feito (e essa é a minha proposta pirata) é o recadastramento das beneficiárias, sobretudo as filhas, que propositalmente não se casam para seguir exaurindo montantes significativos dos cofres públicos, via pensão vitalícia.
É curioso, inclusive, o fato do presidente Michel Temer e seus ministros haverem decidido “poupar” os militares na atual agenda (aqui). Curioso inclusive pelo montante dos benefícios pagos a essa classe de “trabalhadores do Estado”. De acordo com o link anterior, o valor pago aos militares superou os R$32 bilhões em 2015 (sendo quase R$4 bilhões em pensões para as filhas solteiras – aqui)

E as mudanças que proponho não atingiriam somente esses, mas todos os “marajás”, emprestando um termo do ex-presidente Fernando Collor de Mello; proponho reduzir todo valor acima do teto num período de “carência” de doze meses, trazendo para um limite único. (como já proposto nas ideias piratas para o Brasil – aqui)
Um procurador da República ou professor universitário, com salário acima do teto da aposentadoria “privada”, aproveitou das benesses do salário e cargo durante a vida profissional. E, via de regra, conseguiu adquirir bens ou mesmo constituir fontes alternativas de renda nesse período, como previdências complementares.
(Se não o fez, terá de se adaptar à nova vida. Como outros cidadãos brasileiros. Simples assim!)

Proponho também acabar com aposentadorias acumulativas. Se os ex-presidentes Lula e FHC possuem mais de uma aposentadoria, quer seja por ter sido exilado, anistiado, professor aposentado… E se o atual presidente Michel Temer também usufrui de aposentadoria há mais de vinte anos, segundo ele próprio um mau exemplo (aqui), há erro e erro grave!
No caso de Temer, poderia ter renunciado a aposentadoria de Procurador do Estado de São Paulo ao ser eleito vice-presidente…
Minha regra seria: se o trabalhador ainda quer e pode trabalhar, ótimo! Mas ao se aposentar, não deve sobrecarregar um sistema deficitário, extraindo ainda mais do mesmo. Pode até escolher qual dos benefícios será usado para o cálculo da aposentadoria, mas deve escolher uma única.

previdencia-social-300x246E não é só no teto, no limite superior dos benefícios que há problema…
O maior problema pra mim está no trabalhador “normal” ou “não-intelectual”, muitas vezes do campo ou braçal. Ele não vive os mesmos sucessos de aumento da longevidade e de qualidade de vida das classes abastadas.
Parar de trabalhar por força maior (ou pela falta dela) será cada vez mais frequente, com o avanço da idade mínima de aposentadoria. E o aumento dessa idade, diminuirá diretamente a probabilidade deste trabalhador chegar a gozar do sonhado “salário fácil”.
E… Se este contribuinte não tiver saúde para exercer o seu trabalho, será demitido; e não conseguirá outro trabalho formal, que o permita contribuir. Sem contribuir não terá acesso.
O que faz do aumento da idade, um meio de segregar os que mais precisam, ou precisarão da aposentadoria para viver dignamente.

E solução para esse último ponto eu não tenho.
O ex-Ministro e ex-Governador Ciro Gomes propõe a mudança completa de um regime de repartição para um de capitalização (algumas ideias podem ser lidas aqui). O dinheiro da previdência complementar e obrigatória do funcionalismo público geraria um fundo e cada trabalhador da iniciativa privada seria responsável por seu próprio “bolo” a dividir e usufruir nos anos de aposentado.

É melhor do que temos hoje… Mexer nos “graúdos”, principalmente políticos, militares e funcionários públicos com múltiplos benefícios; e poupança própria para os novos ingressantes.

por Celsão correto

figuras retiradas daqui e daqui

P.S.: São muitos os pontos propostos na Reforma da Previdência que não agradam trabalhadores e sindicatos. Uma delas é a alteração da integralidade da aposentadoria por invalidez (aqui). Que pode ser vista também como uma segregação social, da própria Previdência Social

P.S.2: para quem quer saber o valor das aposentadorias pagas a senadores e deputados pelo IPC, o link está aqui. Ali estão José Sarney, Fábio Feldmann, Eduardo Suplicy e Delfim Neto. Pra citar alguns poucos exemplos…

rolezinhonoleblonPois é… Rolezinhos. Aquilo que os jovens de férias pelo Brasil têm marcado via redes sociais, quem diria, está virando um problema político e social.

Político, pois alguns já sugerem que os governantes recebam alguns dos organizadores para entender o que eles querem com isso. (!?!)
Parodiando o grande Stanislaw Ponte Preta e sua personagem Tia Zulmira, a filósofa da Boca do Mato: “Mas os meninos só querem encontrar outros meninos, se divertir, conhecer garotas. Pra quê complicar?

Social, pois estamos diante de uma demonstração clara de preconceito e abuso do poder por parte de empresários.

Aqui vão algumas palavras minhas sobre o tema. Como tudo nesse blog, independentes e diretas…

– É fantástico como as redes sociais realmente pulverizam a informação. Um convite que começou com um “vamos dar uma volta no shopping tal” e “curta e compartilhe”, virou meme (pra quem não sabe o que é, segue o significado de meme) e atraiu milhares de confirmações.
– É incrível como existe um senso de competição entre os jovens. Sadio, quando controlado e sem abusos. O primeiro convite gerou outros e frases do tipo “nós aqui da zona norte(-oeste-sul-leste) temos de fazer melhor que eles!”
– Daí vem, claramente, a incapacidade dos centros de compras em receber de uma só vez alguns mil jovens, não há preparação possível. Muito menos treinamento para os seguranças
– Então entendo (só um pouco) o lado dos donos de shoppings. Sem estrutura e sem preparo, melhor tentar prevenir a “invasão” dessa galera, proibindo-os de entrar.

Pra quem acompanhou o pensamento. Até faz sentido…
Se… os jovens não fossem em sua grande maioria da periferia e negros
Se… esses jovens não chegassem ao shopping ouvindo funk ostentação num alto volume
Se… alguns desses jovens não tivessem a consciência do “choque de acessos” que estão causando
Se… a classe média não se sentisse agora acuada e preocupada com essa apropriação do espaço “dela” pelos desfavorecidos

Este choque entre ricos e pobres e, em menor grau, negros e brancos; entre os dois lados da marginal, entre os que têm e os que gostariam de ter, abre a ferida do preconceito velado. Mostra (aos que sabem ler) a mais nua e crua objeção da classe média aos ascendentes ou àqueles que (com muito esforço) usam as marcas badaladas da própria classe média.
Por quererem ser aceitos, ou melhor, para se sentirem incluídos, parte da sociedade, ou mais profundo ainda, para se sentirem GENTE, os jovens pobres lutam para comprar e ostentar as marcas da moda. 

E a resposta da elite é simples: é o “absurdo” de permitir que pessoas “sem cultura” invadam “nosso espaço”, o espaço das patricinhas dos Jardins (-Mooca-Santana-Leblon).
Se entrarmos no detalhe antropológico do movimento, a elite não vê os pobres nos shoppings, logo eles não existem; e os pobres não sabiam que podiam frequentar o shopping, pois aquele “mundo” não é o meu!
Embora eu não creia que haja real consciência disso na maior parte dos organizadores destes “passeios”, tenho visto isso: a invasão e o choque de acessos! Vejo donos de shoppings perdidos, que não querem perder os clientes, mas não sabem o quê fazer.
Todo jovem negro já foi “seguido” por um segurança (também negro) nos shoppings da elite Paulista (Iguatemi, por exemplo). O problema agora tornou-se maior e fora de controle, pois não é um grupo pequeno de garotos negros, mas milhares deles.

Importante salientar também que, em alguns casos, foram registrados roubos, entre correrias. Ninguém informou se as correrias foram provocadas por ação da polícia ou por própria iniciativa de alguns poucos jovens vândalos. Mas, para a elite, os roubos são um prato cheio…

Vejamos o que mais vem por aí.

por Celsão correto.

– Ao invés de colar links diversos da imprensa sobre o assunto, segue um texto de uma antropóloga – aqui.

– Encontrei também um vídeo-paródia hilário que retrata bem as duas interpretações do “fenômeno”, através dos olhos de um político – aqui.

– Se quiserem ler um pouco sobre Tia Zulmira, segue trecho de entrevista com a personagem. (link)

– figura retirada daqui. Rolezinho marcado no Shopping Leblon com mais de 8000 confirmados!