Posts Tagged ‘trânsito’

maxresdefaultEu estava com pressa.
Daquela maneira que todos estão com pressa em São Paulo, sobretudo a caminho do trabalho numa manhã de Janeiro, pós-recesso de fim de ano.
Os tradicionais desvios de rota, buscando espaços vazios, me levaram para uma ruela, ladeira, e eu tinha de cruzar para a esquerda. E os carros estavam enfileirados no trânsito da avenida Dr. José Maciel…

E aconteceu.
Um gesto de um motorista amigo, sinalizando “Venha!“, fez com que eu avançasse para cruzar à esquerda. Meu plano era dar aquela “paradinha” no meio fio e perceber se o movimento da outra pista me permitiria seguir sentido centro.
Mas no momento de “embicar” e sem prever o acidente, uma moto pequena que trafegava pela faixa amarela que dividia as duas pistas encontrou o meu “bico” prateado.
O “Fodeu!” saiu instantaneamente. E os momentos posteriores se misturaram entre terminar a conversão com as mãos suadas, buscar um local para estacionar o mais rápido possível, praguejar por ter saído atrasado e com pressa, buscar apoio pra minha culpa com o colega motorista que sinalizou aquele “Venha!“…

Tive calma para ligar o pisca-alerta do meu carro, buscar meu triângulo, isolar a área do acidente e pedir para que o motoqueiro (meu Deus, era um senhor grisalho!) não se levantasse.
Tive paciência com a vítima que não quis sequer falar comigo e com os transeuntes que saíam do bar da esquina e que vinham pela rua censurando todos os motoristas de automóveis. “Você viu?” – me perguntavam alguns. “Vi que o motorista fugiu! Alguém anotou a placa?” – respondiam acusando outros. “Ninguém enxerga as motos” – era o consenso de quem sequer havia acompanhado o ocorrido.
Tive a sapiência de esperar CET (no caso, CIRETRAN), esperar familiares e amigos da vítima, esperar a ambulância.
Tive a educação de oferecer transporte para o hospital e de compartilhar meus contatos com a irmã do Sr. Elói e com quem me pedisse.

Nada mencionei (ao CET ou ao meu seguro) sobre a meia de compressão que o Sr. Elói usava no momento do acidente; nem sobre os comentários de sua própria irmã, Dona Sílvia, que dizia “Ele não poderia estar andando de moto! Eu falo pra ele“.
Tampouco alardeei os detalhes do problema: cirurgia de trombose recente e solicitação para recuperação em repouso. Ao contrário: nas minhas ligações para a Dona Silvia, me oferecia para ajudar, proativamente.
Soube da transferência para o Hospital Geral e da probabilidade de nova cirurgia na perna direita. Soube da ocupação no pequeno comércio, o que explicava todos aqueles sacos de salgadinhos espalhados pela avenida naquela manhã; ocupação que exercia depois de aposentado.

Não entendi quando as notícias pararam de ser transmitidas, as conversas interrompidas, as ligações pararam de ser atendidas.
Não entendi tampouco quando recebi a negativa do registro da ocorrência pela internet. “Quando há vítima é necessário ir até uma Delegacia da Polícia Civil“, dizia a mensagem por email.
Piorou quando fui informado na Delegacia da impossibilidade do registro do boletim sem a vítima. “Você quer que ele pague o amassado do seu carro?“, me perguntava o atônito policial. Eu só queria cumprir as exigências do seguro para um eventual suporte para terceiros.

Eis então que, meses depois, sem aviso anterior, recebo um email do “doutor” Daniel, advogado, representando a vítima, me solicitando guincho e conserto da moto, ressarcimento de gastos hospitalares, indenização pelos lucros não computados no comércio, danos morais…
As conversas me enojaram a tal ponto que passei, tão rápido quanto pude, as tratativas para o departamento responsável da empresa de seguros.
Não sei como acabou, não quis buscar outros detalhes, não investiguei vítima, advogado, detalhes da internação. Preferi acreditar que não haveriam outros “Elóis” e “Daniéis” no decorrer do ano.
Deu certo!

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Essa é uma estória real, com excessão dos nomes, que omiti sem sequer saber o porquê.
Aconteceu no início do ano passado e me afligiu em alguns momentos, por um longo período. Não pelo eventual trabalho de preparar documentos e descrever o acidente, mas pela pequenez e mesquinhez dos seres humanos envolvidos. Por ter me encontrado com alguns dos que só pensam em si, em lucrar sobre qualquer custo, em levar vantagem…

Vejo o fato de não “jogar no ventilador” a doença prévia e a provável proibição de conduzir motos como um ato ético de minha parte (uns usariam trouxa), visando proteger o “frágil” e garantir que ele tivesse um suporte digno, ao invés de responder juridicamente a um processo.
Eticamente também, assumi a responsabilidade que me cabia, sem fazer picuinha ou buscar justificativas que me amparassem. Mesmo ouvindo de diferentes colegas relatos com desfechos horrendos, ocorridos com motoqueiros, não busquei advogados e realmente acreditei que a senioridade da vítima, trazia ética e bom senso.
No frigir dos ovos, a ética pagou o pato!

Desejo a todos os leitores que as páginas do livro de 2016 sejam preenchidas com utopias e agradáveis surpresas. E, mesmo se houverem problemas a transpor, que não venham acompanhados de “Elóis” e “Daniéis”.

por Celsão revoltado.

figura retirada daqui – um entre tantos vídeos do Youtube gravados por motoqueiros com câmera

 

Tarde quente em São Paulo.

De invariável trânsito.

Entre uma parada e outra, olho para os lados buscando companheiros de percepção “Tamo na roça”, e também redenção.

Em meio ao transe do anda-pára, agregado aos vendedores ambulantes e motoboys que seguem impassíveis e buzinando, percebo num carro prata ao meu lado uma lata de refrigerante inclinando-se levemente e um movimento de garganta saciando-se.

Assumo que mesmo não curtindo o gosto do líquido, nem a marca impressa naquela lata, senti inveja e desejei aquela “refrescância”. Meio que no embalo do “Obedeça a sua sede”.

Mas eis que a inveja se transforma em indignação com o barulho da lata sendo atirada ao solo; aquele ruído oco, de alumínio leve e vazio rompeu minha vontade e comecei a me perguntar o porquê daquilo, por que as pessoas pensam ser normal atirar lixo nas ruas e como fazer para mudar isso.

Daí piorou, a indignação transformou-se em repulsa; na sequência, dois metros a frente, um papel amassado também foi atirado pelo vidro daquele mesmo passageiro, provavelmente proveniente de um pão de queijo ou coxinha, pensei. Mas… tinha de ser jogado fora? Não podia permanecer no carro?

Pra completar, veio ainda a revolta: um saco plástico seguiu o papel amassado!

“Mas era só colocar lata e papel no saco plástico, poxa vida! E deixá-lo fechado no carro até um posto de gasolina, um estacionamento, uma parada qualquer…” Resmunguei entre dentes.

Porta lixo carro

Lembrei de uma vez, andando na rua, em que devolvi um papel atirado à pessoa que o atirou, com a frase “Você deixou isso cair”, e da cara do indivíduo, que não entendeu meu ato. Senti vergonha naquele dia, ao ponto de não olhar pra trás; mas também senti certo alívio e sensação de dever cumprido.

Com essa lembrança, emparelhei mais duas vezes com o carro, ensaiando um modo de dizer aquilo, perguntar o porquê ou simplesmente xingar. Buscava algo que fizesse sentido ou causasse um desconforto grande o suficiente para que aquilo não mais se repetisse.

Nada encontrei.

E o carro prata com o imundo brasileiro seguiu seu rumo.

por Celsão Revoltado

P.S.: figura retirada do site imds, aqui