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Um sopro

Posted: September 26, 2017 in Outros
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Somos um sopro diante da imensidão do universo, pequenos, minúsculos eu diria.
Temos nosso papel e significado, mas no todo somos quase nada.
Mas um quase nada importante para muitos, muitas vezes, familiares, amigos, amores… E como todos, partiremos um dia, como um sopro, pode ser que ninguém veja, somente nós saberemos… quem sabe?
Enquanto isso, difícil dizer, curtir a vida, que não se sabe quão longa será, deixar de lado o consumismo, o apego material, a falta de tempo para nós mesmos e para com aqueles que nos amam. Difícil viver num mundo capitalista e conseguir desapegar daquilo que nos é imposto,
Quero poder ver mais sorrisos das minhas crianças, pois amanhã, não mais serão. Amanhã, já não serei prioridade, meu valor e importância serão reduzidos, gradativamente. Como é difícil saber que nada é para sempre, que num sopro, tudo pode ruir.
(…)

Um Sopro

Apenas um sopro
Fuuuuuuuu…
É o que somos

Um longo sopro
e apagam-se as velas de comemoração
um suspiro…
seguido de outro longo sopro
e tomamos coragem,
para aquela
tão ensaiada declaração

Um forte sopro
para diminuir o sofrimento
daquele filho que se ralou
por andar desatento

Um curto sopro
até um cisco se vai
em um piscar de olhos

Somos um sopro,
oxigênio “puro”
e continuamos pouco,
minúsculos…

Um sopro
pra dizer Eu Te Amo
um sopro
pra deitar e dormir
um sopro
e os filhos crescem
um sopro
pra vê-los seguir

Um sopro
fazemos planos,
entusiasmados
noutro sopro
mudamos o rumo,
drasticamente

Somos um sopro
vivemos aqui por um sopro
partiremos
sabe-se lá quando…
com certeza, num sopro

Flávio Augusto Ramos de Souza

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Os textos são do meu irmão e leitor, Flávio.
Eles se completam, se complementam, se explicam.
Creio que outros comentários sejam dispensáveis…

por 
Flávio Augusto Ramos de Souza

figura retirada daqui

P.S.: outra sugestão de leitura, aqui

Pai-Herói

Posted: January 24, 2017 in Outros
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dia_dos_pais_0171No último dia cinco, um primo do meu pai, personagem do conto publicado recentemente (aqui), faleceu.
Dizem que qualquer homem pode ser filho, mas somente os homens especiais, podem ser pais.

Na época que escrevi o conto, meu tio (é assim que sempre o tratei), estava internado na UTI.
Mas o momento difícil me fez lembrar de estórias vividas por ele com meu pai, de estórias que vivemos juntos; eles dois, nós e meus primos pequenos. Época de “viajar de ônibus” dentro de São Paulo…

Ambos os pais detinham o magnetismo do “exemplo”.
Tínhamos medo de sermos apanhados em algo que eles não fariam. E, logo, não aprovariam.
Maior que o medo era a vergonha… Como explicar um deslize, algo “feio”, para alguém que era recebido aos gritos e correrias, mesmo com roupas sujas e mãos vazias?

Pequenos humanos, meninos e meninas, tornam-se grandes pessoas através da influência de grandes mentes que se preocuparam com eles, quando pequenos e no decorrer de toda a caminhada.

A perda fez com que minha prima, filha desse verdadeiro pai-herói, se expressasse com um poema-homenagem.
Eis-lo aqui.
Obrigado Lu!

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PAI, QUERO LEMBRAR…

Do seu sorriso, da sua gargalhada, daqueles óculos, do enorme bigode, do seu perfume.

Das festinhas de aniversário, dos almoços e comemorações em família.

Do seu trabalho suado para ver a alegria brilhar em nossas faces.

Dos banhos de mangueira, do balanço e escorregador improvisados.

Do seu jeito tímido de dizer “Eu te amo” com gestos.

Da bagunça que eu e meu irmão fazíamos na oficina.

De quando brincávamos de marceneiro e construtor com os pedacinhos de madeira que sobravam. Afinal, queríamos aprender o seu ofício, pois o senhor era (e sempre será) o nosso exemplo.

Da euforia que sentíamos na espera pela sua chegada ao fim do seu dia de serviço.

Da gente prometendo para a mamãe que não íamos mais fazer bagunça e que não era pra contar nada para o papai.

Da nossa mãe de avental correndo atrás da gente pelo quintal, dizendo: “O pai de vocês já já chega e vocês vão ter de se explicar com ele!”. Bastava um olhar que Lucinha e Juninho logo se aprumavam! Não era medo, era respeito.

Do senhor brincando de vovô com os netinhos. Demorou, mas a cegonha logo se apressou em mandar dois bem próximos um do outro!

Pai, quero lembrar sempre da sua presença.

Descanse em paz, o senhor cumpriu a sua missão aqui na Terra. Um dia nos encontraremos.

Que Deus o receba de braços abertos no Reino da Glória.

Te amo, meu pai-herói!

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por Celsão ele mesmo e Luciana Almeida da Silveira

figura de arquivo pessoal

img-20161130-wa0001Me pareceu que, ontem, a Terra parou.

A brevidade da vida. A imprevisibilidade de um acidente aéreo. A fragilidade do ser humano.

Paramos ontem para lamentar um acidente de uma equipe de futebol que voava para um sonho.
Mas que isso, paramos para analisar a própria vida. E o impacto que a inevitável morte traz, sobretudo aos que ficam.
Impossível não pensar em familiares, amigos e até nos desconhecidos de Chapecó, e no sentimento de perda deles. Improvável não lembrar paralelamente da NOSSA fragilidade e repensar nossas ações e objetivos de ultimamente…
Somos felizes?
Quanto tempo será que ainda temos de vida?

A fatalidade de ontem interrompeu o post quase concluído, sobre a morte de Fidel Castro.
Coincidentemente, fiz quarenta anos ontem. A idade daquela marca de “começo” ou “recomeço” segundo o ditado.
Mas subjetivo impossível.

Donde no puedas amar, no te demores” – roubo a citação de Frida Khalo para lamentar consoante não só a perda e a impotência em mudar certas coisas; mas também lamentar o desperdício de tempo, do dia-a-dia que nos consome atrás daquilo que não sabemos se conseguiremos, nem sempre temos a certeza que o queremos e as vezes nem sabemos ao certo ser correto sob a ótica moral.
Lamentar também, sobretudo, o desperdício de amor!
Com ou sem uma religião ou credo que explique o inexplicável e traga conforto, no amor todos cremos; e muitas vezes é ele, apesar de estranho e desconhecido, que preenche os vazios e dá sentido.
Se o pequeno clube catarinense mostrava grandeza em sua breve história, movia e comovia uma cidade em prol de suas conquistas, o fazia também por amor, pela sensação boa de dever cumprido, pela busca do “algo mais” na incessante batalha diária.
É possível afirmar que todo o país adotou a “Chape” por representar essa busca, por ter a superação como lema, por ver muitas vezes no esporte o espelho da vida. E em suas improváveis e vibrantes vitórias o reconforto desejado.

img-20161130-wa0002E as homenagens do mundo, principalmente as feitas por desportistas de diferentes nacionalidades e esportes, reforçaram o choque da perda e a sensação de que não existem super-homens, não há livramento para tudo, por mais que sejamos famosos e bem sucedidos.
O minuto de silêncio memorável, proporcionado na partida do Liverpool (vídeo aqui), e o símbolo da Chapecoense projetado nos telões da NBA, antes dos jogos dessa terça, deram a proporção do ocorrido. Mostraram que realmente “paramos”, em choque…

Foi como uma “sacudidela” impossível de ignorar. Aquele “toque” para mostrar que nós não somos seres superiores.

por Celsão filosófico

figuras recebidas por whatsapp no dia de ontem. Desconheço a autoria

Vida

Posted: November 9, 2016 in Outros
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postÂngelo sentou-se no sofá.
Afundando em tristeza enquanto a própria deformação do móvel envolvia o seu corpo magro.
Os minutos se passaram daquela forma taciturna e indolente. Mas foram respeitados.
Seu rosto estava ainda mais marcado. Era como se parte dele não estivesse mais ali.
Não havia necessidade de palavra. O silêncio caía bem, dada a situação. Ao mesmo tempo em que muito era dito em pensamentos.
A admiração mútua, as estórias e aventuras compartilhadas em São Paulo, o sonho de regressar à terra natal…

O outro acabava de voltar de uma viagem especial.
Sentia um misto de alívio, pela missão cumprida, e vazio. Mas entendia aquela tristeza.
Os últimos meses passaram pela negação, revolta e demais fases psicológicas descontroladamente. Escancarando a humanidade que a própria humanidade tenta negar.
A fragilidade, a frivolidade… a vida como vivemos!

Anos antes partilharam festas de aniversário com refrigerantes em garrafa de vidro, programas Sílvio Santos em salas apertadas, visitas sem aviso prévio que não acabavam antes daquele café passado na hora e dos biscoitos, bolos, pães. Coisa de baianos, ou de nortistas, como eles próprios se classificavam.

Voltando ainda mais no tempo, partilharam aventuras num São Paulo sem trânsito na Rebouças, com Pelé no Pacaembu e torcidas misturadas nos estádios, fotos em monóculos, excursões para Aparecida, bailes na tal “terra da oportunidade”.
Emigração corajosa, sofrimento, sub-empregos, profissões descobertas, família! Tudo partilhado e compartilhado.

Mas aquele encontro era único. Algo ainda não experimentado.
A perda gerava desconforto.
Aquele típico desconforto aflitivo, provocador, que se tenta sanar dizendo algo inteligente, marcante, útil.
Mas não era possível. O silêncio dizia mais. Declarava o respeito e o amor sentido por eles, para com o que havia partido.

Incontáveis instantes depois, uma frase banal rompeu aquele silêncio, mas irrompeu lágrimas reprimidas e verdadeiras.
As barreiras do machismo e preconceito deram lugar ao extravasar de sentimentos.

A dor foi celebrada e partilhada, naquele momento, para dar lugar, posteriormente e novamente, à vida.

por Celsão filosófico

figura retirada daqui

post-estrada-da-vidaNessa longa estrada da vida, vou correndo e não posso parar
Na esperança de ser campeão, alcançando o primeiro lugar

Ouvi essa música acidentalmente num uber.
E me deparei com sua (talvez real) intenção. Era uma semana difícil, semana em que a filosofia não me deixava…

Quem falou isso?
Quem estabeleceu que só o primeiro lugar interessa? Que precisamos ganhar sempre?

E que maldito modo de comparar a nossa mísera e comum vida com a de outrem, que é a internet, com seus Facebooks e demais aplicativos acessíveis e acessados donde quer que estejamos!
Não basta viajar pra Europa. É preciso registrar, divulgar e “compartilhar”.
Não seria esse compartilhar uma tentativa quase desesperada de se sobrepor nalgum aspecto sobre outras pessoas igualmente frustradas?

Frustração.
É aquilo que nos atinge quando não podemos realizar algo.
Quando não podemos trocar de carro, quando não conseguimos pagar a melhor escola para nossos filhos, quando o salário não dá para esbanjar em restaurantes e coisas fúteis.
Mas tal sentimento também está presente quando não nos entendemos com familiares, quando não podemos ajudar quem precisa e também quando não nos sobra tempo para os filhos e para amigos que gostamos.

Primeira pergunta importante: por que não podemos nos sentir frustrados somente com os “itens” subjetivos citados no segundo parágrafo?
Por que sempre o material (ou a falta dele) nos frustra?
E a segunda pergunta que me atormentou: por que compensamos a falta de tempo com a família e amigos, a falta de paciência e a impotência ante a situações desagradáveis com o que listei no primeiro parágrafo?
Por que imaginamos que presentes caros substituíram carinho e apreço, que lembrancinhas de outros países ou marcações na internet substituirão o tempo não investido? Que compartilhar notícias e vídeos revoltantes do youtube ajudarão na redução desse sentimento de impotência em relação aos males do mundo?

Ouvi estórias tristes ultimamente.
De homens que não fizeram amigos no colégio ou faculdade, mas que fizeram contatos.
Como se conhecer o filho do dono da empresa “X” ou escritório “tal”, fosse mais importante que risadas inocentes num churrasco; ou mais importantes que empatia e respeito mútuo.
As crianças mimadas, treinadas para competir sempre, não aceitam negativas e usam essa ambição agressiva para atingir seus objetivos, galgando sobre outros, incluindo aqueles que poderiam ser seus amigos!

De pais superprotetores que desenham pros filhos um futuro “deles”, com objetivos imputados, passando por caminhos e etapas que eles não gostariam de trilhar.
Tolhem a liberdade de escolha. E ainda pioram a realidade, pois ensinam que a felicidade está ligada ao TER e independe de outras pessoas. Cada um que a busque e a consiga.
Ah… essa meritocracia danada que premia poucos…

E dentre os problemas desse raciocínio está o fato de que quase toda empresa possui apenas um presidente; e um sempre reduzido corpo diretivo.
E… nem todo mundo alcança a possibilidade de andar de Ferrari, de morar nos Jardins, de ter seus filhos estudando num Colégio Porto Seguro…
E a frustração reaparece. Mais forte do que nunca. Até para esse que não atingiu o almejado 0,1% do topo da pirâmide, e se encontra “apenas” na faixa do 1% mais rico.

Quem se preocupa consigo hoje em dia?
Com a própria saúde, com as emoções, com controlar o próprio eu?
E acho que o número de respostas positivas diminui mais ainda se estendermos essa análise para as pessoas próximas, para o que merecem (e demandam) nossa atenção.

Pessoalmente, a frustração do não ter sempre me mostra o quão longe estou daqueles que gostaria de estar perto.
Escancara a verdade irrefutável. Tenho o suficiente, mas me falta tempo para usufruí-lo. Para compartilhar, compartir e retribuir.
E isso, sim, aumenta bastante essa inquietude em mim, esse sentimento estranho de frustração, me fazendo evoluir.

por Celsão filosófico

figura retirada daqui

bar-celularChego em casa ruidosamente.
Entro pela cozinha, uma vez que trago itens de mercado que precisam ser guardados na geladeira, e vinhos que vão para a despensa.
Noto pela fresta da porta que todos estão em casa; cada um em seu mundo. Me esforço para não gritar nesse momento, ordeno pacientemente tudo o que comprei e aproveito para guardar na geladeira o leite, os frios e outras guloseimas abertas e desprotegidas que mãos “ocupadas demais” largaram na cozinha.

Tento inutilmente beijos de recepção. Reflito comigo mesmo, buscando na memória o início de tudo isso… desse isolamento eletrônico-internético.
Dou risada ao lembrar da música de Gil: “O mundo agora é pequeno por conta da antena parabolicamará.” Misturo essa com a outra, chamada “Pela internet”, ao assobiar. Todos ainda em seus ambientes virtuais, não percebem meu sorriso, meus movimentos de pegar um CD e de colocá-lo para tocar no antigo 3 em 1.

Finalmente vejo movimentos, meu filho sai do sofá da sala e se dirige a seu quarto, enquanto batuco algumas das músicas do Chico Science, Afrociberdelia. Rio sozinho novamente, depois de relembrar onde o meu neologismo eletrônico-internético me levou…
Sou assim, solto. Viajo em pensamentos que se concatenam automaticamente e fogem ao meu controle. Minha mente viaja ao comparar os diferentes verdes de uma simples folha de planta rasteira, ao perceber um riso inocente de criança e o consequente riso de satisfação e orgulho do adulto que a acompanha… Solto a imaginação em livros e até em comenrciais de revista de compania aérea. Mas não me vejo “preso” à internet todas as parcas horas livres do meu dia. Como se o Netflix e o Youtube me dominassem, arrastando-me para as suas indicações.

A esposa, outrora companheira dessas viagens, dos shows, dos planejamentos e ambições, agora acompanha hipnotizada um seriado qualquer no Netflix. A menina mais nova, talvez jogue, talvez publique no Facebook, difícil saber quando o fone branco parece colado no ouvido e os dedos ágeis escrevem ininterruptamente.

Ocupo o espaço entre as duas propositalmente, no afã de receber agrados gratuitos ou, ao menos, atenção. Ambas se mostram incomodadas e se viram simultaneamente, dando-me as costas e se prostrando a 180 graus uma da outra; como uma equipe de nado sincronizado.
Termino o sanduíche matutando sobre o que fazer: entregar-me também aos vídeos do whatsapp? Sair para respirar o ar “puro” de São Paulo? Abrir um livro?

O ócio eletrônico-internético é tentador. O esforço é mínimo quando quase tudo na casa já está conectado às inúmeras possibilidades da rede mundial: TV, computadores, impressoras e até o relógio-despertador, que lê pen-drives, cartões SD e acessa rádios pela internet, ao invés do confuso método de sintonia em ondas curtas.

Vou ao quarto do meu filho e sou sumariamente expulso com um “Cai fora, pai!“. Meu planejamento há 17 anos era conversar abertamente sobre as baixarias e pornografias abundantes das mais variadas formas; correlacionando a comicidade das minhas revistas de difícil obtenção e de intensa circulação entre os “parças” da época.
Como fazer isso agora?

xon-the-phone_jpg_pagespeed_ic_8ZOTFQpD42E se eu criasse um grupo da minha família? Penso, rindo novamente comigo mesmo.
Decerto esse grupo já existe, minha filha deve tê-lo criado… só esqueceu de adicionar o pai caretão.

Vou pra cama ainda curtindo minha caretice; pois começo a imaginar uma estória de pessoas que vivem o mesmo problema.
Será que elas usariam o Facebook para se conectarem umas com as outras e compartilhar este sofrimento?
E o que seria isso, hipocrisia ou inevitável ironia?

Acho que vou escrever um livro.
Talvez o Amazon faça uma versão e-book dele…

por Celsão Irônico

figuras retiradas daqui e daqui (que recomendo também a leitura do relato de vício do Leandro)

P.S.: recomendo também o excelente video dos barbichas, que pode ser acessado aqui .

P.S.2: outro conto nosso relacionado com o tema (aqui)

Olhos para a vida

Posted: March 8, 2015 in Outros
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Brevidade_VidaÉ tão breve, a vida. Mas há mais por vir, que o que já se foi. Mesmo assim, já é possível sentir, como é breve.

Sendo sensível, vez por outra, ocorrem-lhe aqueles momentos que chegam sem avisar, e uma simples percepção lhe salta aos olhos, como se nunca tivesse havido… mas sempre houve. O que sempre existiu, se revela novo, e lhe preenche, ou lhe muda, ou ambos. Os olhos sempre foram, olhos… mas a retina de dentro, essa prega peças.

Yamandu Costa, nos bastidores de seu show com o “mágico” Dominguinhos, disse em entrevista: “em 1995 eu conheci o Dominguinhos. Estávamos tocando na mesma noite, e tinha uma música de encerramento onde todos os artistas subiam ao palco e tocavam juntos. Num certo momento abriu-se espaço para os improvisos. Eu entrei com “uma sede” – Yamandu movimenta rápido, dedos e mãos, ilustrando como tocava com empolgação seu violão – fiz milhares de notas, para querer impressioná-lo (Dominguinhos). No segundo improviso deram o sinal ao Dominguinhos, ele entrou, e tocou…. páááhh – Yamandu desacelera, fecha os olhos, ergue o corpo levemente, num movimento de quem está a flutuar – quatro notas… – breve silêncio. Naquele momento eu entendi o que era colocar o coração na música. Foi a primeira aula que Dominguinhos me dera.”

Também Renato Russo dizia que, para tocar as canções da Legião Urbana, são necessários apenas três acordes. De fato, em sua maioria, as músicas da Legião não possuem complexidade instrumental. Mas quanto à excelência da poesia, quanto à ousadia e sanidade da mensagem, quanto à profundidade do toque das palavras, e quanto à alma contida na melodia e arranjos… ah Legião, que arte! Parecem, assim como Dominguinhos, conhecer os segredos de algo, algo impalpável, mas perceptível; algo impronunciável, mas compreendido quando pronunciado pelo artista por essência.

O mundo hoje, ao que indica a história, é bem mais acelerado que o mundo de ontem. O sistema exige muito de nós todos, e o faz com nosso consentimento. Mas é consentimento aquilo que não nos é consciente? O sistema nos permite consciência?

São 8, 10, 12, 14 horas de labuta. Somam-se então as horas no trânsito. Cuidar de casa, conversar com o(a) parceiro(a), “perceber” os filhos e cuidar deles. Num tempinho que sobra, temos que escolher entre um esporte para que a saúde e a forma não se percam de vez; ou então ler mais umas páginas do livro empoeirado, há semanas na cabeceira da cama; talvez escolher um dos filmes pendentes dos últimos anos; ou quem sabe encontrar os amigos ou ir visitar os pais ou avós, que moram longe, mesmo que às vezes, morem perto… Ah, quando paramos pra pensar, dá vontade de dormir, pra parar de pensar.

Como esperar, numa vida de tantos afazeres, que se possa estar bem informado, se a única rápida oportunidade que se tem de se informar, é assistindo o rápido noticiário da noite na maior emissora da TV?

Buscar informações em outros meios? Isso é coisa para quem tem tempo…

No meio de tantos flashs diários da rotina, onde o tempo parece dar voltas em elipses pouco imprecisas, viver se tornou um Déjà vu imperecível. Como então esperar sentir a gloriosa sensação do toque do pingo da chuva quando encontra sua pele numa tarde de 40 graus? Só há tempo para procurar a próxima sacada, e se esconder, para não molhar o terno/vestido.

No meio de tanta poluição visual, como esperar enxergar o cartaz do artista que se apresentará, gratuitamente, no parque de seu bairro?

Tanto barulho, buzinas de carros e motos, gritos de ambulantes, o palhaço ao microfone na porta da Casas Varria, a sirene da ambulância que já vai em busca de mais um anônimo (ao menos para você); como ousar perceber a beleza do peso e sofrimento que carrega o dedilhar de cada tecla da sanfona do músico na esquina?

É como que se uma locomotiva passasse infinitamente em nossa frente, lotada de supérfluos e alegorias, mas, vez ou outra, escondidas no cantinho de um, entre tantos vagões, estivessem discretas receitas de felicidade. Muitas passarão, mas poucas, a percepção. A não ser que o “percebedor” se permita passar a observar esse trem com mais cuidado, mais atento, olhando menos com os olhos de fora, e mais com os olhos de dentro.

Belchior

Belchior – Um Concerto a Palo Seco

Também vítima dessas armadilhas da rotina, foi-lhe difícil aceitar o fato de que, foram necessários 31 anos de estrada e de amor à música, para enfim “perceber” o álbum Um Concerto a Palo Seco, de Belchior. Aquele menino de 14 anos, que ouvia todos os CDs da Legião Urbana sem fadiga, parecia reviver. A cada toque do violão de Gilvan Oliveira, uma surpresa, frente à melodia simples e perfeita. A cada canto rasgado de Belchior, uma navalhada na alma. Quanta pureza, quanta afinação, quanta transparência, quanta emoção, quanta bagagem, carrega o cantor.

E após duas semanas de paralisia, resolveu tirar a poeira de seu violão e imitar aqueles acordes e aquele canto. Doce ilusão, quando percebeu então, que não era tão simples assim… os sentimentos de outros, não são para si… Violão pro lado e play no teclado, pois agora, eu quero Tudo Outra Vez.

por Miguelito Filosófico

ps.: Para ouvir Belchior – Um Concerto a Palo Seco, clique na figura 2 ou aqui

figura 1 retirada daqui

Video_01Este post apresenta dois vídeos com o intuito de alertar e exemplificar o modo atual de “socialização na solidão” na internet e redes sociais, além de mostrar a vida que se perde a cada tecla e tela…

O primeiro vídeo-tema chama a atenção para o modo como estamos nos desligando do mundo, olhando apenas para baixo em nossos i-phones, tablets, smartphones e outros gadgets interessantes.

É realmente notável, como as pessoas estão se desligando da realidade e se “re-ligando” à outra totalmente distinta, virtual. Basta observar as pessoas em shoppings, nos aeroportos, em consultórios médicos, nos intervalos das escolas e universidades.
Todos estão atualizando status no facebook, compartilhando vídeos via WhatsApp, conversando com amigos nos inúmeros aplicativos para esse fim…

Se por um lado existem os que acreditam ser um comportamento absurdo e um total desperdício de vida, tal “mudança” de abordagem dos contatos sociais, com milhares de interações e ao mesmo tempo nenhuma REAL (como Gary Turk, autor do vídeo); por outro existem pessoas contrárias a esta corrente, enaltecendo os benefícios de estar conectado, como as possibilidades de encontrar amigos que se distanciaram, de pedir taxi sem risco, de encontrar serviços nas cercanias sem risco, GPS, etc.

Na minha opinião, não creio ser o fim da sociedade o uso excessivo de interações na nuvem, mas me preocupa.

A preocupação vem com as novas gerações, que talvez nem curtam as boas e más experiências que os mais velhos tiveram; e nem falo de se sujar brincando na rua, dos carrinhos de rolimã, etc., falo de experiências no sentido de conhecer pessoas, descobrir as boas e más companhias, fazer amizades verdadeiras e separar as que possuem algum interesse, olhar com os próprios olhos e ouvir o som das coisas sem se preocupar em gravar e fotografar aquilo em imagens e vídeos que jamais serão revistos, vivenciar as diferenças e presenciar outras verdades, de outros lugares.

Temo por moldar os jovens cercando e lhes cerceando da possibilidade de descobrir por eles mesmos o certo e o errado, de interagir com as imperfeições de outras famílias, de observar pessoas na feira, no mercado, na padaria pela manhã. Se tudo for resolvido de modo digital e impessoal, perderemos tais interações.
(Os mais velhos ainda se reunirão, marcando via app, um jantar qualquer pra falar do passado e reclamar da modernidade que não entendem…)

Video_02bOutra preocupação, mas séria, vem da nossa insistência em fazer várias coisas ao mesmo tempo…
O segundo vídeo que, creio, todos devam assistir ao menos uma vez, é uma propaganda bem bolada, feita num cinema em Hong Kong. Aqui, de modo brilhante é exposto o risco de dirigir e ao mesmo tempo estar no “mundo virtual 100% conectado”.

Já escrevemos através de um conto (aqui) o que pode vir a ser a influência da interação virtual no ambiente de trabalho.
Minha dica é: aprenda a separar e a dedicar um tempo exclusivo a cada atividade!

Enfim… indico que vejam os dois filmes e repensem o modo em que estão interagindo virtualmente, independente da mudança, vale a reflexão!

por Celsão correto

figuras retiradas dos vídeos indicados

P.S.: os vídeos podem ser acessados nas figuras ou aqui abaixo:
– Look Up – Gary Turk (legendado em Português): http://youtu.be/j2pqn2oQIgU
– Propaganda contra uso de celular ao dirigir: http://youtu.be/SpNooPX7UoQ